sábado, novembro 16

Esboços


Era de noite, novamente. Esbarrei-me nos lençóis preenchidos pelo teu cheiro e encontrei-te exigindo o silêncio. Este pareceu mais longo do que deveria ter sido. Há tempos, arrancaste-me da solidão, da ilusão que vivera. Ousei recordar-te desses pequenos gestos, do quão me ajudaste naqueles dias saturantes e cansativos. Do extraordinário que foste e és.
Nesta noite, em que me tocaste, e os teus dedos queimados ameaçaram a minha pele vazia, enlouqueci. O teu cheiro, agora, repleto de tabaco mostrou-me a loucura que há em ti. Desconhecia, admito.
No cinzeiro, deixaste os teus cigarros fumados, e o fingimento descomprometido. Suspiro-te a saudade que tenho de ti, a saudade que tomo pelo que és. Preencheste a minha alma, as minhas noites e até a minha vida perto do abismo. Preencheste-me de tudo aquilo que vivemos sem saber. Não há nada mais reconfortante do que o teu cheiro no meu lar. E mais uma vez, regressei aos tempos de felicidade imensa, e o culpado és tu. Peço-te que não vás, peço-te que não me arranques do corpo a transparência daquele que é teu. Recordo-me, delicadamente, do que me contaste nas últimas noites. Recorda-te também. E foi num tanto que mais uma vez me afoguei nos esboços delicados do teu corpo.
Respirei a noite, e adormeci.

3 comentários:

  1. Uauuu...tao...tao lindo!

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  2. Anónimo20:03

    Fernando Pessoa:
    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
    que ninguém sabe quem é
    ( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes
    e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa

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  3. Cativaste-me. Balancei nas tuas palavras e vi o desenrolar das frases. É tão profundo.

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